Durante muito tempo, o pescado esteve associado a momentos específicos do calendário, principalmente à Semana Santa. Esse cenário, porém, começa a mudar. A categoria vem conquistando espaço em outras ocasiões de consumo, impulsionada pelo crescimento da produção, pela ampliação da variedade de produtos disponíveis e pela busca dos consumidores por praticidade e novas alternativas para as refeições do dia a dia.
Os números da piscicultura brasileira ajudam a dimensionar esse movimento. De acordo com a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), a produção nacional de peixes de cultivo alcançou 1.011.540 toneladas em 2025, crescimento de 4,41% em relação ao volume produzido no ano anterior. A tilápia mantém a liderança e responde por 70% do peixe cultivado no país. No ano passado, foram produzidas 707.495 toneladas da espécie, 6,83% a mais que em 2024. As projeções indicam que a piscicultura brasileira deve continuar avançando nos próximos anos.
Cenário local
Em Minas Gerais, o cenário também é de expansão. Já consolidada no Estado, a piscicultura vem ganhando novo impulso com a entrada de grandes empresas tradicionalmente ligadas a outros segmentos da proteína animal. Em 2025, a produção mineira de peixes de cultivo chegou a 77.500 toneladas, alta de 6,46% em relação a 2024. A tilápia responde por quase 95% desse volume e também apresentou crescimento expressivo: foram 73.500 toneladas produzidas, aumento de 6,98% no período, relata a Peixe BR.
O avanço da produção, aliado à diversificação da oferta e às mudanças nos hábitos de consumo, coloca o pescado diante de uma nova oportunidade no varejo. Para os supermercados, o desafio passa a transformar uma categoria historicamente marcada pela sazonalidade em uma opção cada vez mais presente na rotina do consumidor.
Crescimento da categoria
Segundo Carlos Bocardi, gerente do Celeiro Supermercados, de Três Corações, a categoria de pescados apresenta desempenho “espetacular” nas lojas da empresa, especialmente por se tratar de um modelo de varejo de vizinhança. A rede trabalha principalmente com produtos empacotados, como filés de tilápia e merluza, além de sardinhas evisceradas.
Ele destaca ainda o crescimento das vendas de sardinhas e atuns em lata, impulsionado, entre outros fatores, pela maior preocupação dos consumidores com a alimentação saudável e pela influência das redes sociais.
Para Carlos, o comportamento do consumidor mudou de forma clara nos últimos anos. A busca por produtos que combinem praticidade, preço justo e atributos associados à alimentação saudável ganhou força, especialmente diante da necessidade de otimizar o tempo. “Um produto saudável, com um preço justo e fácil no preparo tem falado mais alto. Prático, saudável e tem no bairro”, resume.
Já Jobson Rafael Santos Bitencourt, gestor de compras do departamento de açougue do Supermercados Alvorada, no Sul de Minas, os pescados ainda representam uma participação pequena nas vendas da rede, mas apresentam desempenho significativamente melhor em períodos sazonais, especialmente durante a Quaresma e a Semana Santa. “É uma categoria que tem uma participação bem pequena de venda na rede, porém, em algumas épocas do ano, como a Semana Santa e a Quaresma, a performance melhora consideravelmente”, explica.
Entre os produtos de maior procura estão o filé de tilápia, a merluza e o filé de salmão. Segundo Jobson, o salmão ganhou espaço nos últimos anos, impulsionado também pela maior presença da culinária japonesa na região.
Como a rede não trabalha com pescado fresco, a comercialização é concentrada nos produtos congelados, que permitem maior prazo para a venda e facilitam o controle de validade. O modelo também ajuda a reduzir riscos de perdas em uma categoria de menor giro.
A sazonalidade também orienta as estratégias comerciais da rede. Durante a Semana Santa, o supermercado prepara um jornal exclusivo do Festival de Pescados, reunindo produtos relacionados ao período, além de realizar degustações em algumas lojas. A categoria também é incluída eventualmente nos encartes semanais e recebe maior exposição em períodos como a Quaresma.
Semana do pescado

Realizada de 1º a 15 de setembro de 2026, a Semana do Pescado tem como objetivo incentivar o consumo de peixes e frutos do mar, valorizar a produção nacional e conscientizar a população sobre a importância nutricional e econômica do setor. Para o varejo, a mobilização representa uma nova oportunidade de ampliar a presença dos pescados nas lojas e estimular o consumo fora dos períodos tradicionalmente associados à categoria.
Durante a Semana do Pescado, o Celeiro Supermercados aproveita o período para ampliar o mix e reforçar a divulgação da categoria. Para Carlos Bocardi, o pescado já deixou de ser uma compra exclusivamente sazonal e passou a integrar os hábitos de consumo dos clientes. Por isso, as ações comerciais são realizadas ao longo de todo o ano, principalmente por meio de tabloides digitais, redes sociais e vídeos promocionais.
Além das ofertas, a rede também trabalha com pratos prontos elaborados sob encomenda, utilizando pescados como matéria-prima. A estratégia amplia as possibilidades de consumo e agrega praticidade à categoria.